Sexualidade

Quando o homem perde o desejo pela parceira

Durante muito tempo alimentou-se a ideia de que o homem está sempre disponível para o sexo. Bastaria haver oportunidade e estímulo para que o desejo surgisse naturalmente. A prática clínica, entretanto, mostra uma realidade bem diferente.

Tenho atendido muitos homens de meia-idade, inseridos em relacionamentos estáveis, que relatam uma perda progressiva do desejo de intimidade com suas parceiras. Não se trata necessariamente de dificuldade de ereção, nem de deficiência hormonal.

Eles simplesmente deixaram de sentir vontade de viver a intimidade sexual.

Essa constatação costuma surpreender. Afinal, ainda persiste a crença de que os homens conseguem separar sexo de sentimentos. Em parte, isso pode acontecer. De fato, a sexualidade masculina tende a ser menos dependente do vínculo afetivo imediato do que a feminina. Porém, essa capacidade tem limites.

Nenhum ser humano permanece indiferente por muito tempo à forma como é tratado dentro de uma relação.

As causas da redução do desejo masculino são numerosas e quase sempre multifatoriais. Envelhecimento, doenças crônicas, obesidade, sedentarismo, depressão, ansiedade, estresse, uso de medicamentos, consumo excessivo de pornografia e alterações hormonais podem contribuir para esse quadro.

Entretanto, existe um aspecto frequentemente negligenciado: a qualidade da relação.

Quando um homem passa a conviver diariamente com críticas, julgamentos, cobranças, ironias, desqualificações ou tentativas constantes de controle, pode ocorrer um desgaste silencioso da intimidade emocional. E, para muitos deles, a intimidade emocional alimenta a intimidade sexual muito mais do que imaginamos.

O desejo dificilmente floresce em um ambiente onde alguém se sente permanentemente inadequado, desrespeitado ou insuficiente. Sentir-se admirado, reconhecido, valorizado e acolhido continua sendo uma necessidade humana, e não exclusivamente feminina.

Outro aspecto interessante diz respeito à dinâmica de poder dentro do relacionamento. Alguns homens, especialmente aqueles que cresceram sob modelos tradicionais de masculinidade, constroem parte importante de sua identidade na função de provedor. Quando a parceira alcança maior sucesso profissional ou financeiro, isso não representa, por si só, um problema. O sofrimento surge quando ele interpreta essa situação como perda de valor pessoal ou de identidade.

É importante deixar claro que não é o sucesso da mulher que reduz o desejo masculino. Muitos homens sentem orgulho das conquistas de suas companheiras e vivem relações profundamente saudáveis.

O que interfere é o significado que alguns atribuem a essa nova configuração da relação.

Quando a autoestima masculina está excessivamente vinculada ao papel de provedor, qualquer mudança nessa dinâmica pode gerar insegurança, sentimentos de inferioridade e repercussões sobre a sexualidade.

Seria injusto, entretanto, responsabilizar exclusivamente a parceira pela perda do desejo do homem. Da mesma forma, seria inadequado atribuir toda dificuldade masculina apenas às doenças ou aos hormônios. A sexualidade acontece na interação entre duas pessoas. Ela nasce, cresce ou enfraquece na forma como o casal constrói sua convivência diária.

Tenho dito frequentemente aos meus pacientes que, muitas vezes, o homem não perde o desejo pela parceira. Ele perde o desejo pela relação que existe entre eles. Essa diferença é fundamental.

Quando compreendemos que o desejo sexual não depende apenas do corpo, mas também da maneira como nos sentimos dentro da relação, abrimos espaço para intervenções muito mais eficazes do que simplesmente prescrever medicamentos.

Talvez o verdadeiro tratamento comece quando ambos deixem de perguntar “quem está errado?” e passem a perguntar “o que aconteceu conosco?”.

Porque o desejo não costuma desaparecer de um dia para o outro. Na maioria das vezes, ele vai embora lentamente, acompanhando o afastamento emocional que o casal deixou de perceber.

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