Sexualidade

Fazer amor ou fazer sexo: quando a intimidade vira campeonato

“Amar é brincar. Não leva a nada.

Porque não é para levar a nada.

Quem brinca já chegou.” –

Rubem Alves

Há frases que parecem explicar a sexualidade melhor do que muitos tratados acadêmicos. Esta, de Rubem Alves, talvez seja uma delas. E talvez ilustre, com rara delicadeza, algo que observo há décadas na prática clínica: existe uma diferença importante entre fazer sexo e fazer amor.

Sim, eu sei que para muitas pessoas as expressões parecem sinônimas. E podem até ser em determinados contextos. Mas a experiência subjetiva que as acompanha frequentemente não é a mesma.

Fazer amor me parece mais próximo do brincar. E brincar possui uma característica extraordinária: não precisa chegar a lugar algum.

Quando duas crianças brincam, nenhuma delas interrompe a diversão para perguntar: Quem brincou melhor?

Nenhuma diz: “Hoje ganhei de você”.

Nenhuma estabelece placares, metas ou indicadores de desempenho. Elas brincam porque brincar basta. O prazer está na própria experiência.

Mas algo curioso parece acontecer quando entramos no território da sexualidade. O encontro amoroso, muitas vezes, abandona a lógica da brincadeira e passa a obedecer à lógica dos jogos competitivos.

E todo jogo tem regras, metas, desempenho e vencedores. A partir daí surgem os placares invisíveis da intimidade:

“Eu cheguei ao orgasmo e você não. Está 1 x 0 para mim?”

“Você perdeu a ereção? Ficou me devendo uma”.

Pode parecer caricatura. Porém, na prática clínica, percebo que esse tipo de diálogo emocional acontece com muito mais frequência do que imaginamos.

Talvez não seja verbalizado dessa forma, mas aparece no ressentimento, na cobrança, na culpa, na sensação de fracasso e na ansiedade.

Vivemos uma época em que até a sexualidade parece ter sido capturada pela lógica da produtividade. Tudo precisa funcionar, render, performar.

Quanto tempo durou? Quantas vezes aconteceu? Foi intenso? Teve orgasmo? Foi perfeito?

A intimidade passou a ser avaliada como quem analisa resultados de uma empresa ou estatísticas de um atleta.

É a sexualidade mercadológica, o sexo de resultados, a ditadura do orgasmo. Curiosamente, quanto maior a obsessão pelos resultados, mais o prazer parece escapar.

Talvez porque o erotismo não floresça sob vigilância. Ninguém vive plenamente o prazer quando transforma o encontro amoroso em prova prática.

Sexo vivido apenas como desempenho cria tensão. Fazer amor cria presença. Porque fazer amor talvez seja justamente recuperar a capacidade de brincar: tocar sem roteiro, rir sem culpa, experimentar sem metas, permanecer sem pressa.

Significa compreender algo simples e revolucionário: prazer nunca foi sinônimo de orgasmo, e que sexualidade nunca se resumiu ao encontro dos genitais nem aos segundos do clímax.

Nunca é demais repetir que sexualidade envolve afeto, comunicação, carinho, intimidade e presença.

Na lógica da competição alguém sempre perde. Já na lógica do amor ninguém precisa vencer.

E talvez a pergunta mais importante depois de um encontro íntimo não seja: “Você chegou ao orgasmo?”

Porém outra, muito mais humana: “Nós conseguimos nos encontrar?”

Porque quem brinca não corre para chegar. Quem brinca já chegou.

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